Marcel Favery Photography
25/06/2026
À Mar
Há quem atravesse o mar.
Eu, por descuido ou destino,
aprendi primeiro a amar.
E talvez por isso confunda as palavras.
Porque quando digo Mar,
nem sempre falo das águas.
Como se o próprio oceano precisasse de um nome
para caminhar entre os homens.
Amar a Mar é um verbo presente.
A gramática já o prevê,
e o coração insiste.
Ama-se a Mar como se observa o horizonte:
sabendo que ele nunca termina
onde os olhos juram que termina.
Há nela algo das marés.
Recolhe-se para dentro de si
quando compõe.
Avança sobre o mundo
quando canta.
Sua voz não ocupa espaços;
ela os transforma.
Faz do silêncio matéria-prima.
Do sentimento, arquitetura.
Da memória, melodia.
E quando a música já não basta,
Marta desenha.
Como se algumas paisagens interiores
recusassem a forma do som
e exigissem a delicadeza do traço.
Depois escreve.
Porque há mares que podem ser navegados,
mas não cantados.
Há mares que podem ser cantados,
mas não desenhados.
E há os raros mares
que transbordam todas as margens da arte.
Marta habita esse lugar.
Poetisa quando as palavras pedem abrigo.
Compositora quando os sentimentos exigem movimento.
Cantora quando o mundo precisa de voz.
Artista quando nenhuma definição basta.
Talvez seja por isso que a superfície nunca seja suficiente.
Conhecer Marta é como conhecer o mar:
a cada profundidade alcançada,
descobre-se outra.
E outra.
E outra.
Até que chega um instante
em que já não sabemos se contemplamos o mar
ou se é ele quem nos contempla.
E então compreendemos:
não fomos nós que aprendemos a amar a Mar.
Foi a Mar que nos ensinou
a profundidade do verbo amar.
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