Duarte Marques
08/03/2026
António,
escrevo-te como quem acende uma luz tarde da noite numa casa já quase toda em silêncio. Não para te chamar de volta, que os grandes não voltam: permanecem. Escrevo-te para te falar de dentro dessa espécie de inquietação que tu deixaste em nós — não tranquilidade, nunca; antes uma lucidez febril, uma faca acesa, uma maneira de olhar para o mundo e perceber que por baixo da toalha bem posta da vida há sempre qualquer coisa a sangrar devagar.
Falo-te como quem ainda te escuta. Porque há vozes que não acabam quando o corpo se cala. Há vozes que f**am a trabalhar dentro de nós, como um motor nocturno, como uma maré escura, como um cão fiel à porta da consciência. A tua foi assim. Não nos deste descanso, e ainda bem. Há escritores que entretêm, há escritores que adornam, há escritores que fazem bela mobília para a sala da literatura. Tu não. Tu entravas pela casa dentro, puxavas as cortinas, mostravas o pó, a febre, a vergonha, o amor mal curado, a infância que nunca acaba de apodrecer nem de salvar-se.
E eu, que te leio como quem se aproxima de um espelho partido, reconheço-te nessa grandeza rara dos que não quiseram agradar. Nunca foste escritor de salamaleques. Nunca foste homem de pôr laços na ferida para que ela parecesse flor. Foste ao osso. Foste à carne. Foste à língua até ela deixar de ser apenas instrumento e passar a ser destino. E isso, António, não se agradece com maneiras. Agradece-se com assombro.
Às vezes apetece-me dizer-te que nos estragaste para a literatura menor. Que depois de ti a frase fácil parece logo uma aldrabice, o efeito bonito soa a porcelana, e a piedade sem abismo sabe a água morna. Tu ensinaste-nos que escrever não é enfeitar a vida: é entrar nela desarmado e, ainda assim, não recuar. É ouvir o tumulto, o ridículo, a ternura, a humilhação, a memória, o grotesco, e dar-lhes uma música própria — uma música que não consola, mas acompanha. E por vezes isso basta. Por vezes é tudo.
Não te falo só como leitor. Falo-te como quem também conhece, à sua escala, a mesa de trabalho, a solidão, a disciplina absurda de regressar todos os dias a uma página que não nos prometeu misericórdia nenhuma. Tu sabias isso. Sabias que a escrita não é uma vocação etérea com passarinhos à janela; é uma oficina escura, com ferrugem, nervo, cansaço e qualquer coisa de penitência escolhida. Mas também sabias — e foi isso que nos deixaste — que há uma alegria feroz nesse combate. A alegria de arrancar verdade ao caos. A alegria de encontrar, numa frase exacta, uma espécie de justiça.
E depois havia o homem. O humor. A ironia. Aquela maneira de atravessar a gravidade sem lhe obedecer inteiramente. Porque só os verdadeiramente grandes podem dar-se ao luxo de não posar para a grandeza. Os pequenos incham; os grandes respiram. E tu tinhas isso: essa inteligência ferida e viva, essa elegância de não te levares à solenidade, essa capacidade de dizer o terrível sem perder o sorriso enviesado de quem conhece a comédia triste da nossa condição. O mundo, contigo, nunca foi só trágico. Foi trágico e absurdo, cruel e terníssimo, grotesco e sagrado — como de facto é, o malandro.
Por isso escrevo-te assim: não como quem ergue uma estátua, mas como quem se senta contigo mais um pouco. Como quem te diz que continuas aqui. Nas estantes, claro. Mas sobretudo naquele lugar mais sério e mais secreto: a maneira como agora lemos, como desconfiamos, como escutamos, como tentamos escrever sem mentira. Continuas aqui no ritmo quebrado do pensamento, na memória que regressa aos solavancos, na frase que avança e recua como se respirasse, na coragem de não simplif**ar o humano para caber em moral de algibeira.
Faz-nos falta gente assim. Gente que não nos trate como leitores mansos, gente que não nos dê ração literária em tigela de plástico, gente que ainda acredite que a literatura é um risco e não uma montra. Tu foste esse risco. E talvez por isso permaneças. Porque o que é cómodo passa; o que é necessário f**a.
António, meu caro, há mortos que descansam. Tu não. Tu continuas a inquietar-nos. Ainda bem. A literatura, sem esse incómodo, seria apenas decoração de interior. E tu nunca foste decorador de coisa nenhuma. Foste, e és, um homem a abrir corredores escuros dentro da língua portuguesa para que nós, tontos e maravilhados, entrássemos atrás de ti.
Eu entro. Ainda entro.
E, do fundo desta admiração que não precisa de vénias mas de verdade, digo-te apenas isto: obrigado pela febre, pela desordem, pela música, pela coragem. Obrigado por teres escrito como quem arranca a alma à noite e a põe em cima da mesa, ainda a bater.
Há quem deixe obra. Tu deixaste temperatura.
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