Isabel Pereira Rosa - Poesia e Prosa

Isabel Pereira Rosa - Poesia e Prosa

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16/06/2026

Em Coruche, li, entre outros poemas, "Alzheimer":

Alzheimer

Se eu não me lembrar do teu nome
nem do teu rosto,
talvez me lembre ainda do teu abraço, da tua pele.
No inverno, pega-me na mão e leva-me até à beira-mar;
quando chegar a primavera, oferece-me uma papoila;
no verão, coloca duas cadeiras sob uma árvore frondosa
e lê-me poemas em voz alta
e no outono deixa-me atravessar os campos e pisar as folhas secas.

Isabel Pereira Rosa

14/06/2026

ESTA ROSA DE PEDRA E ÁGUA

O mundo tende a fenecer, sabemos;
um dia, o próprio Sol se apagará,
mas antes disso, podemos resistir
e mudar o que pudermos mudar.
Não é possível reacender o Sol
nem refrear o mar;
mas podemos proteger as aves e os insetos
e ficar longe dos bichos infectos
(que estão a crescer, a crescer...)
Talvez mudar de planeta, quem sabe,
usar e deitar fora, não é?
Eu cá por mim prefiro tentar salvar
esta rosa de pedra e água,
ainda que tenha de vestir farrapos
e comer apenas o que dela brota.

Isabel Pereira Rosa

07/06/2026

Este é um dos poemas que lerei no próximo sábado em Coruche:

OS CORPOS DAS MULHERES
Marionetes num palco de tachos e lençóis
eram assim os corpos das mulheres
que ninguém explicava, ninguém sabia explicar,
apenas que alimentavam e davam vida e prazer.
Ninguém queria escutar o que tinham para dizer.
Muitas delas viajavam na vida como se fosse morte
e viam arder os seus desejos nessa barca infernal
e sonhavam conseguir escapar aos abutres
que as devoravam ainda em vida, sem aviso prévio.
Era profunda a raiva, espessa a impotência,
côncavo o inconformismo, a crescer no âmago do ser.
Mas chegou um dia a primavera aos ventres das mulheres
e soltaram-se da sua boca anseios como flores livres ao vento
e nos seus dedos cansados nasceram novos pensamentos,
finalmente donas do seu corpo, senhoras do seu querer.
Oh, mas chorai, mulheres, chorai, gritai e lutai, porque no mundo
ainda há corpos de mulheres sobre os quais são os homens a decidir.

Isabel Pereira Rosa

06/06/2026

A INTERMITÊNCIA GLORIOSA E BREVE DAS PAPOILAS

Inglorioso labor o de lançar a semente
na terra seca e dorida.
Mas a artéria da terra, rubra e resiliente,
deixa tombar a sua própria semente
no chão, na pedra, no cardo,
e contra tudo e contra todos,
faz-se beleza e faz-se vida.
Para quê desejar a eternidade,
beber longamente os dias?
Melhor fora lograr a intermitência
gloriosa e breve das papoilas.

Isabel Pereira Rosa (texto e foto)

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