Ana Silva - Autora

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27/05/2026

Há pessoas que fogem da realidade.

Eu sento-me ao computador e crio outra ainda mais complicada.

Com crimes.
Traumas.
Personagens emocionalmente instáveis.
E gente que claramente precisava de terapia… não de entrar no meu livro.

Ana Silva 😌😂

Photos from Ana Silva - Autora's post 25/05/2026

Ontem foi o Cortejo da Queima das Fitas de Coimbra.

Uma tradição tão antiga quanto a própria alma estudantil desta cidade.

Mas como explicar aquilo que Coimbra nos faz sentir quando há quem, sublimemente, tente há décadas fazê-lo através de baladas, serenatas e fados… sem nunca conseguir verdadeiramente traduzir o que aqui se vive?

Há músicas que fazem cair uma lágrima.
Há guitarras de Coimbra que apertam o peito sem aviso.
Há palavras lançadas de geração em geração entre histórias, memórias e saudades.

E ainda assim… continuam insuficientes.

Porque Coimbra não é apenas uma cidade.

“É uma lição de sonho e tradição.”
E aprende-se a dizer saudade.

A Queima das Fitas nunca foi apenas uma festa.

É emoção acumulada em ruas cheias.
É juventude a transbordar.
É excesso.
É liberdade.
É despedida.
É vida a acontecer ao mesmo tempo em milhares de pessoas… e de milhares de maneiras diferentes que acabam por se fundir numa só identidade:
estudantes de Coimbra.

Porque há qualquer coisa de irrepetível em ser estudante aqui.
E talvez “ter” um filho a estudar em Coimbra seja viver esse sonho outra vez… de uma forma ainda mais profunda.

Ontem percebi isso de forma inesperada.

Enquanto atravessava a Ponte de Santa Clara a pé para ir encontrar o meu filho junto ao início do cortejo, emocionei-me como não esperava.

Passo aquela ponte tantas vezes.

Mas ontem foi diferente.

De repente, a memória atingiu-me inteira.

Há mais de trinta anos era eu quem vivia aquela energia.
Eu quem respirava Coimbra com a intensidade mágica de nela ser estudante.
Eu quem desfilava pelas ruas orgulhosamente trajada, feliz, inteira naquela vida.

E hoje é ele.

O meu André.

E talvez só quem viveu Coimbra assim consiga perceber o impacto silencioso de tudo isto.

Olhar para um filho no meio daquele cortejo… daquela academia… e reconhecer-lhe nos olhos a mesma alegria, a mesma intensidade, a mesma sensação de pertença que também serão sempre nossas.

Porque há qualquer coisa de profundamente emocional no instante em que percebemos que o tempo passou…
e, ao mesmo tempo, continua ali.

Nas capas negras.
Na música.
Nos carros alegóricos.
Na cidade cheia.
Na euforia impossível de controlar.

E depois há os pais.

Os que assistem orgulhosos.
Os que fazem sacrifícios enormes para manter os filhos a estudar aqui.
Os que apertam as contas durante anos para lhes dar a possibilidade de viver uma das fases mais bonitas da vida.

Porque estudar em Coimbra não é apenas frequentar uma universidade.

É crescer.
É descobrir-se.
É construir memórias que ficam para sempre.

Talvez por isso tanta gente regresse.
Ano após ano.
Mesmo décadas depois.

Não apenas para ver o cortejo.

Mas para voltar a tocar, nem que seja por breves instantes, na pessoa que foi aqui.

Ontem percebi isso com uma força diferente.
A estudante que fui caminhava na mãe que sou.
E durante alguns segundos senti as duas a emocionarem-se ao mesmo tempo.

Porque Coimbra tem este poder raro:
não nos dá apenas memórias.

Deixa-nos pedaços inteiros da alma espalhados pela cidade.

Ana Silva

23/05/2026

Retorno, sem desejar, à noite em que te vivi.

Não sei se te conheci
ou se apenas em ti me refleti.

Ainda hoje tenho a memória exata do instante em que te vi.

Real…
a determinação de percorrer o longo caminho
para deixares de estar distante.

Surreal
o que senti.

O teu olhar atravessou-me.
E de imediato ouviu o meu.

As tuas mãos cingiram-me o rosto
com uma delicadeza contrastante
com a tensão constante
da aproximação iminente.

Uniste os teus lábios aos meus.

E nesse instante,
a sanidade periclitante cedeu.

Já não havia caminho de volta.

Havia apenas o corpo
a reconhecer antes da razão.

A respiração a falhar.
A pele a responder.
A vontade a tornar-se maior
do que qualquer prudência.

Inexistente a distinção
entre o meu corpo e o teu
em tresloucada união.

Fome insaciada.
Vulcão em permanente ebulição.

Vertigem ansiada.

Tudo.

Assim éramos nós.

Nus.
Crus.

Insanidade
que a lucidez vai minando aos poucos.

E pouco
se foi tornando
à medida que o tempo foi passando.

Até o excesso se gastar.
Até o incêndio deixar apenas cinza.

Até a vertigem se tornar memória.

E permanecer apenas o fantasma
que assombra numa ou noutra madrugada.

Ecos
de noites que continuam vivas
muito depois de terminarem.

Lembrete
de que há emoções
que apenas precisam
de ser despertadas.

Ana Silva

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