Mozpipa BAND
11/04/2026
Sentimos a mesma coisa,
Há uma dor silenciosa que se instala quando a memória começa a brilhar mais do que o presente.
Uma saudade funda. Densa. Quase física.
Saudades de um tempo em que o problema não era “o que fazer”, mas sim como conseguir ir a tudo. Uma cidade viva demais para caber na agenda de um homem só.
Saudades de um tempo em que ver uma exposição de Malangatana Valente Ngwenya, de Naguib ou de Alberto Chissano não era evento, era rotina. Era hábito. Era respiração cultural.
Saudades de cruzar com José Craveirinha na Mafalala…passo lento, olhar profundo, chapéu clássico, como se carregasse nos ombros o peso poético de um país inteiro. E aquilo… aquilo não era privilégio. Era normal.
Saudades de Fany Mpfumo a destilar clássicos com a mesma velocidade com que virava uma pinga. Como quem transforma dor em música e música em eternidade.
Saudades da Zaida Lhongo,
kurrufelando o corpo, provocando o espírito,
lembrando-nos que cultura também é pele, é suor, é pulsação.
Saudades do tempo em que músico… era músico. Banda ao vivo. Erro humano.
Alma presente. Nada de playbacks emocionais para plateias anestesiadas.
Saudades do Hokolokwe.
Da RM.
Do Gorowane.
Do Mozpipa.
Do K10.
Saudades das danças que não pediam licença para existir. Invadiam o corpo, tomavam o chão, conquistavam o mundo.
Saudades do Milhoro.
Da Companhia Nacional de Canto e Dança.
Do Dança Para Ti.
Saudades do teatro que não se assistia, sentia-se. Do Mutumbela Gogo, do Zomola, do Txova Xi Ta Duma, da Casa Velha…palcos que não tinham medo de dizer. Nem de doer.
Saudades de ir ao cinema como quem vai a um ritual.
Ao Africa ver “o tempo dos leopardos”.
Ou “O vento sopra do norte”.
Ao Gil Vicente ver “Lena procura seu pai” ou “O ritmo da felicidade”.
Ao Império “Trinitá”.
Ao Olimpia ver “Os 18 homens de bronze”.
Salas cheias. Silêncio respeitoso. Emoção partilhada.
Saudades das escapadas aventureiras:
Barragem dos Pequenos Libombos.
Namaacha. Onde a vida parecia mais leve… e mais nossa.
Saudades do Favo.
Do Sheik.
Do Mini-Golf.
Da Quinta São Vicente.
Da Quinta Jazz Club.
Saudades de uma cidade que fervilhava. Que transbordava. Que não pedia desculpa por ser viva.
Saudades do Verão Amarelo.
Do Verão Azul.
Do Fantasia.
Do Fantástico.
Do Fama Show.
Saudades de um tempo em que a cultura não era “evento”.
Era ambiente.
Hoje…olho em volta.
E dói.
A cidade parece cansada.
Respira, sim… mas sem alma.
Há movimento,
mas não há vida.
Há barulho,
mas não há festa.
A alegria de outrora foi substituída por uma sobrevivência barulhenta, um “dumba-nengue” emocional onde tudo se vende… menos a alma.
Os artistas deixaram de ser prioridade.
Foram substituídos pelos “nhonguistas” do imediato, do fácil, do descartável.
E no meio disso tudo, sobra um silêncio ensurdecedor.
E uma pergunta que incomoda:
Estamos a deixar morrer a cultura?
Ou ela já morreu… e nós ainda não tivemos coragem de fazer o funeral?
Porque o que resta… às vezes parece um vale de zombies. Gente a andar. Mas sem chama.
E no meio desse deserto… resistimos. Nós e pouco mais que isso.
O GUNGU.
Sozinho não por escolha, mas por ausência dos outros. Sozinho não por vaidade, mas por sobrevivência.
E aquilo que devia ser motivo de orgulho…
transforma-se numa angústia profunda:
Como é que uma cidade inteira delega a sua alma a uma única trincheira?
Mas talvez, talvez a cultura não esteja morta.
Talvez esteja em coma.
Um coma longo. Induzido.
Por desinteresse.
Por abandono colectivo.
E se está em coma… então há uma hipótese.
Há sempre uma hipótese.
Mas não com discursos.
Não com nostalgia vazia.
Não com posts bonitos.
Para ressuscitar a cultura é preciso acção.
É preciso:
— Financiamento contínuo e transparente para as artes;
— Educação cultural desde cedo, para formar público, não apenas artistas;
— Incentivos fiscais reais para quem investe em cultura;
— Programação contínua nas cidades, não eventos pontuais para fotografia;
— Reabilitação dos espaços culturais históricos, devolvendo-lhes dignidade e função;
— Valorização dos artistas, com contratos justos e condições de trabalho humanas;
— Parcerias entre sector público e privado, com responsabilidade partilhada;
— Plataformas de difusão modernas, que levem a cultura para além das salas;
— Resgate da identidade, porque um povo sem cultura é apenas população;
— E, acima de tudo… participação do público.
Porque cultura não vive sem gente.
E talvez o mais duro de tudo isto
é saber que nós já fomos felizes.
Fomos intensos.
Fomos criativos.
Fomos referência.
E não sabíamos.
Hoje sabemos.
E talvez, ainda possamos ir a tempo de voltar a sê-lo.
Mas desta vez…conscientes.
Porque a saudade não pode ser o último palco da cultura.
✍️Gilberto Mendes
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