Gilberto Mendes 0ficcial
Ainda ontem era uma Bebé. Hoje já caminha para ser uma donzela. Como o tempo passa rápido. Feliz aniversário, filha❤️.
AFINAL, POR QUE É QUE NÃO CASAS, MUKWACHE?
É uma pergunta simples.
Tão simples que chega a ser desconfortável.
Porque curiosamente o Mukwache nunca pergunta:
“Por que é que fizemos esta casa? Tivemos filhos? Comprámos terreno?
Por que é que dividimos as despesas? Ela Lava a minha roupa? Cozinha para mim?
Mas quando chega a hora de ela perguntar:
“Então, quando casamos?”
O Mukwache muda de assunto como quem ouviu falar do seu velório.
E responde, coçando a orelha esquerda com a mão direita:
“Ainda não chegou o momento.”
Qual momento, Mukwache?
Se uma mulher já dividiu com ele a juventude, o corpo, os sonhos, os filhos, o que é que ainda está a avaliar?
O amor? Ou a coragem?
Há uma coisa curiosa nos Mukwaches.
Nunca têm pressa para casar.
Mas têm uma velocidade impressionante para envelhecer a mulher que dizem amar.
Porque o Mukwache não rouba dinheiro.
Rouba calendários, janeiros, aniversários, natais, fotografias que nunca serão tiradas.
Rouba, sobretudo, abraços que uma mãe sonhou dar à filha vestida de noiva.
Rouba ao pai aquele orgulho silencioso de conduzir a filha até ao altar ou à conservatória.
Rouba aos filhos a história que um dia gostariam de contar.
E o mais cruel é que ele quase nunca percebe que está a roubar. Esse é o verdadeiro drama.
O Mukwache dorme tranquilo.
Raramente acorda com peso de consciência.
Ele tem no seu subconsciente uma ilusão de protecção suprema à parceira.
Ele nunca acorda de manhã a pensar:
“Hoje vou magoar a mulher que amo.”
Não. Nunca!
Ele faz pior.
Ele adia a sua parceira. Adiou o passado. Adia o presente. E volta a adiar o futuro. E adia outra vez.
Até transformar o adiamento num estilo de vida sem perceber uma coisa que as mulheres aprendem muito cedo.
O tempo não pesa da mesma maneira para todos.
Uma mulher conta o tempo, os períodos e as estações.
Conta os cabelos brancos da mãe, os netos que os pais gostariam de conhecer, os sonhos..
O homem, muitas vezes, conta apenas as semanas até ao dia do salário.
Ela olha para o relógio.
Ele olha para o calendário.
Mas nenhum dos dois vê o mesmo tempo.
E talvez seja por isso que tantas mulheres deixam de insistir.
E nesse momento os Mukwaches pensam, aliviados:
“Ela deixou de falar no assunto.”
Não, Mukwache. Ela apenas deixou de acreditar que falar muda alguma coisa.
Há um silêncio que não é paz. É desistência.
E quando as mulheres deixam de perguntar talvez já estejam a fazer o luto de um sonho ainda em vida.
Engolem perguntas para não parecerem cobranças, lágrimas para não parecerem chantagem e sonhos para não parecerem exigência.
Até que um dia já não há nada para engolir.
Só o vazio.
O curioso é que o Mukwache segue tranquilo
Depois surgirá com as frases famosas.
“Casamento é só um papel.”
Só um papel?
Então por que guarda tão bem o Duat ?
Por que renova a carta de condução?
É extraordinário.
Há Mukwaches com seguro do carro contra todos os riscos, mas deixam o amor da vida deles sem o único seguro público que depende apenas da sua palavra.
O casamento não é um vestido. Não é uma festa.
Não é uma fotografia para as redes sociais.
É uma frase. Curta. Simples. Poderosa.
“Sim. É da minha livre e espontânea vontade casar com...”
E essa frase, quando é dita do fundo do coração, diante do mundo, deixa de ser apenas amor. Passa a ser responsabilidade.
Porque amar em privado é confortável.
Assumir em público exige coragem.
Mas, Mukwaches, há um dia que chega para todos. O dia em que olharão para trás e já não irão contar quanto dinheiro pouparam por não fazerem a festa.
Irão contar quem já não estará cá:
A mãe dela.
O pai dela.
O vosso pai.
A vossa mãe.
Os amigos que terão partido.
As pessoas que esperaram por um convite que nunca chegou.
E perceberão, tarde demais, que a vida não cobrou o preço do casamento.
Cobrou o preço do adiamento.
Porque o tempo nunca envia factura.
Desconta diretamente na vida.
E há dívidas que não se pagam com dinheiro.
Pagam-se com arrependimento.
Por isso volto à pergunta.
Sem ironia. Sem sarcasmo.
Sem vontade de provocar nem humilhar.
Apenas com a honestidade que o amor merece.
Afinal, por que é que não casas, Mukwache?
O momento certo não aparece. Decide-se.
E enquanto o Mukwache espera pelo dia perfeito, há uma mulher a envelhecer ao seu lado.
Não por falta de amor.
Mas por excesso de espera.
E ninguém tem o direito de construir a sua tranquilidade com os anos que pertenciam aos sonhos de outra pessoa.
Há quem rouba carteiras, carros, casas.
E tudo isso se recupera.
Mas o Mukwache, sem dar por isso, rouba a única coisa que nunca poderá devolver.
O tempo.
✍️Gilberto Mendes
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