Gizele Cordeiro
31/05/2026
Postei um reels com cenas de um filme mostrando anedonia e depressão funcional e passou de 8 mil visualizações com centenas de comentários de pessoas se reconhecendo naquelas cenas.
Isso me fez ir atrás dos números reais porque quando tanta gente se identifica com algo assim não é coincidência, é dado.
Em 2024 o Brasil bateu recorde histórico de afastamentos por saúde mental com mais de 440 mil pessoas precisando parar formalmente e em 2025 esse número subiu para 546 mil, crescimento de 15% em apenas um ano segundo o Ministério da Previdência Social, com custo estimado de R$ 3,5 bilhões para o INSS, sendo 64% dos afastados mulheres.
Mas esses são só os casos que chegaram ao diagnóstico.
Pesquisa da Unisul com a University College London mostrou que 15,6% dos brasileiros relatavam sintomas depressivos mas apenas 4 em cada 10 haviam recebido diagnóstico médico, e pesquisa brasileira publicada na Revista de Neurologia e Psiquiatria encontrou anedonia, que é a perda de prazer pelo que antes importava, em 81% dos pacientes com depressão com maior intensidade em mulheres.
A maioria continua funcionando, trabalhando, cuidando de todo mundo, com o volume da vida baixado sem saber que isso tem nome e tem cuidado.
E segundo dados da OIT e do Ministério Público do Trabalho, apenas 46% dos municípios brasileiros têm políticas de atendimento em saúde mental, o que significa que mais da metade das cidades do país não tem estrutura mínima para acolher quem adoece.
Buscar suporte não é esperar chegar no fundo, é perceber que o volume está baixado há tempo demais e decidir que você merece mais do que sobreviver funcionando, e isso inclui terapia, acompanhamento psicológico contínuo e comunidade, porque o sistema nervoso se reorganiza no vínculo e ninguém se cura no isolamento.
No Brasil existe atendimento gratuito pelo CVV no número 188 disponível 24 horas, pelo CAPS na sua cidade através do SUS e pelo CFP no 0800 647 4445 que encaminha para atendimento psicológico gratuito em todo o país.
Se você se reconheceu aqui, esse dado já importa.
Roda da Consciência Psicoafetiva
Por Gizele Cordeiro
Você não perdeu a vontade de viver, você perdeu o acesso ao que antes fazia sentido.
Tem uma forma de não estar bem que não aparece nos filmes sobre depressão.
Você funciona, trabalha, responde mensagem, cumpre o que precisa. Por fora tudo segue mas por dentro tem um volume que foi baixando tão devagar que você nem percebeu quando o silêncio virou normal.
As coisas que antes davam prazer continuam existindo, você só não consegue mais ser alcançada por elas. O café que você amava, música que te movia, a conversa que te energizava. Continuam lá. Mas chegam amortecidas, como se houvesse um vidro fino entre você e a experiência.
Isso tem nome: Anedonia. E é um dos sinais mais silenciosos de que o sistema nervoso está pedindo atenção há mais tempo do que você está percebendo.
A linha entre não estar presente e estar em depressão funcional é tênue exatamente porque a depressão funcional não te derruba. Ela só vai tirando a cor aos poucos e como você continua funcionando, ninguém pergunta. Às vezes nem você mesma pergunta.
Eu já estive nesse lugar, produtiva por fora e completamente anestesiada por dentro. E o que me moveu não foi entender melhor o que estava acontecendo, foi ter um espaço seguro onde eu podia parar de fingir que estava bem.
Estudos mostram que quanto mais tempo a anedonia permanece sem suporte, mais o sistema de recompensa do cérebro se reorganiza em torno da ausência de prazer como estado padrão. Não é frescura, é neurobiologia.
Se você se reconheceu aqui, isso já é um dado importante.
Buscar suporte não é esperar chegar no fundo é perceber que o volume está baixo há tempo demais e decidir que você merece mais do que sobreviver funcionando.
Roda da consciência Psicoafetiva
Por Gizele Cordeiro — Neuropsicóloga | CRP 06/96465
Tem dias em que a reação parece grande demais para o que aconteceu.
Uma mensagem, um silêncio, uma rejeição pequena, uma mudança de tom…
e, de repente, algo em nós transborda.
Não é exagero, é ativação.
Como diz Gabor Maté, a ferida só dói porque ainda está exposta. E viver com feridas expostas faz o corpo interpretar o presente a partir da dor do passado.
Então não reagimos apenas ao que aconteceu agora.
Reagimos também ao que isso tocou dentro de nós.
O problema é que, muitas vezes, começamos a criar distorções a partir dessa ativação.
“ninguém me ama”
“vou ser abandonado”
“Por mais que eu faça não sou reconhecido”
“preciso me proteger”
E sem perceber, confundimos trauma com identidade. A roda psicoafetiva me fez compreender algo muito importante: uma ferida ativada atravessa corpo, emoção, pensamento, percepção e vínculo ao mesmo tempo.
Por isso não adianta trabalhar só o pensamento racional, se o corpo continua em ameaça relacional, a mente cria narrativas para sobreviver.
Curar não é nunca mais ser ativado. É conseguir perceber a ativação sem se tornar ela.
É olhar para si com consciência suficiente para entender: “isso que estou sentindo agora talvez também pertença a outras histórias.”
E aos poucos, criar experiências internas mais seguras.
No curso Ansiedade: um caminho de volta para si, eu aprofundo esse processo através da Roda da Consciência Psicoafetiva.
Porque autoconhecimento não é controlar o que sente mas é aprender a se sustentar no que sente sem se abandonar ou se fundir as emoções.
Antes de ensinar alguém a “controlar” o que sente, eu ensino a escutar a própria experiência.
A Roda da Consciência Psicoafetiva nasceu justamente dessa percepção clínica: o sofrimento emocional não é apenas um sintoma mental. Ele é corpo, vínculo, memória, defesa, narrativa e tentativa de proteção.
Ansiedade, trauma, exaustão emocional, relações difíceis, sensação de vazio, hipervigilância, desconexão de si… tudo isso atravessa o corpo e as relações antes mesmo de virar pensamento consciente.
E por isso… a roda não funciona em linha reta.
Na abordagem fenomenológica, não seguimos uma ordem rígida. Seguimos o que aparece.
O que emerge.
O que o corpo revela no encontro.
Às vezes começamos pelo corpo porque ele chega em colapso.
Outras vezes pela memória.
Outras, pelas relações.
E há momentos em que o silêncio diz mais do que qualquer técnica.
A roda não é uma sequência. Ela é um mapa vivo de leitura da experiência humana.
Reconhecer
Porque aquilo que não é percebido continua sendo repetido no automático.
Regular
O sistema nervoso precisa sentir segurança antes que a mente consiga elaborar a dor.
Compreender
Muitos sintomas não nascem do presente — nascem de adaptações emocionais que um dia foram necessárias para sobreviver.
Ressignificar pela experiência
Quando a emoção encontra expressão, o corpo deixa de carregar sozinho aquilo que nunca pôde ser dito.
Integrar
Relações seguras não começam apenas no outro. Começam na forma como aprendemos a nos abandonar ou nos acolher.
Sustentar
Mudança emocional não acontece em grandes viradas. São pequenas experiências repetidas de segurança, presença e consciência.
A Roda da Consciência Psicoafetiva integra:
— neurociência do afeto
— teoria do apego
— regulação do sistema nervoso
— trauma relacional
— práticas corporais
— arteterapia
— fenomenologia clínica
— consciência emocional aplicada ao cotidiano
Mas acima de tudo: ela ensina a desenvolver um observador interno capaz de perceber os movimentos emocionais sem se perder dentro deles.
E talvez essa seja a verdadeira transformação:
não nunca mais sentir dor
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