Executoria
Dormir
27/02/2026
Terminei a leitura de O Andar do Bêbado, de Leonard Mlodinow.
Mais de 300 páginas.
Repleto de referências, experimentos, estatísticas, estudos de caso.
Um livro intelectualmente honesto e, em vários momentos, exaustivo.
Seguramente, ainda no meio do segundo exemplo, eu já havia compreendido o mote central: o papel dominante do acaso nas nossas vidas é muito maior do que estamos dispostos a admitir. E talvez tenha sido exatamente isso que tornou a experiência diferente de outras leituras que fiz.
A tese é clara, poderosa e desconfortável.
Mas o caminho até ela é denso. Técnico. Repetitivo em alguns trechos.
Por diversas vezes considerei abandonar. Trocar por algo “mais fluido”. Seguir para um livro diferente.
Minha esposa me perguntou recentemente se eu havia gostado de todos os livros que li.
A maioria, sim.
Este? Eu respeitei.
O conteúdo é muito bom sólido, embasado, provocador.
Mas exige energia cognitiva. Não é leitura para relaxar; é leitura para confrontar vieses.
Talvez uma boa resenha me agradasse mais do que o mergulho completo na estatística, nas regressões à média, nas falácias cognitivas e nos experimentos sociais. Ainda assim, aprendi o que precisava aprender:
Tendemos a superestimar habilidade e subestimar sorte.
Criamos narrativas causais para eventos essencialmente aleatórios.
Confundimos padrão com ruído.
Um trecho que sintetiza bem a força do livro:
“Quanto maior o sucesso, maior a probabilidade de que o acaso tenha desempenhado um papel significativo.”
É desconfortável especialmente para quem constrói carreira, negócios e reputação com base em performance. Mas é intelectualmente libertador.
Aprendi o que tinha que aprender.
Missão cumprida.
Bóra pro próximo.
E você: quanto do que você chama de mérito hoje é, na verdade, variância estatística disfarçada de competência?
VaLEO
14/02/2026
IKIGAI
Creio que todos saibam que sou nipo-italiano.
Carrego dois mundos como herança e no coração.
De um lado, Suguiyama, minha raiz japonesa, disciplina, silêncio, honra, resiliência.
Do outro, Cinezi: minha veia italiana, intensidade, pessoas, mesa cheia, história viva.
A cultura oriental sempre me convidou a retornar às origens. Há algo nela que me chama para dentro. Para o essencial. Para o propósito.
Acabei de ler Ikigai, de Héctor García e Francesc Miralles. Um livro pequeno, rápido e dinâmico mas com conteúdo interessante e bem embasado em pesquisa (ainda que não profunda ou acadêmica). Ele provoca uma reflexão simples e poderosa: por que você levanta da cama todos os dias?
Em nossas poucas viagens, tivemos a oportunidade de conhecer a comuna de Treviso, da parte italiana da família. Caminhar por ali, respirar aquele ar, imaginar meus antepassados vivendo suas rotinas… foi uma experiência difícil de explicar.
E espero, um dia, descobrir de qual cidade japonesa meu avô Massaru veio para fazer o mesmo. Para pisar naquele solo. Para sentir o vento de lá. Para fechar um ciclo que ainda está aberto dentro de mim.
Há um ditado japonês no livro que sempre me marcou:
“Nanakorobi yaoki.”
“Se cair sete vezes, levante-se oito.”
Talvez seja isso.
Propósito não é algo místico ou grandioso. É constância. É disciplina. É levantar mais uma vez do que se caiu.
No fim, o livro me deixou uma pergunta simples e nada simples ao mesmo tempo:
Você já encontrou o seu ikigai… ou ainda está vivendo no piloto automático?
VaLEO
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