ARSE RH
06/06/2025
No dia a dia de uma agência de empregos, ouvimos muitos relatos.
Alguns falam de desafios, outros de conquistas. Mas de tempos em tempos, chega alguém que nos lembra por que fazemos o que fazemos.
O texto a seguir é inspirado em um desses encontros — e carrega mais do que palavras: carrega um reencontro com o sentido do nosso trabalho.
Fidelidade Empregatícia
O sujeito entrou na agência de empregos com aquela cara de quem não tinha mais o que perder, e, francamente, talvez nem mais o que ganhar, carregando uma pasta de currículos tão murcha quanto suas esperanças.
— Vim... vim ver se vocês... bom... se vocês ainda estão comigo — balbuciou.
Quem o atendeu sorriu daquele jeito treinado que mistura compaixão com protocolo.
— Claro, senhor José! Estamos sempre à disposição para encontrar novas oportunidades para você.
— Esta é a questão — interrompeu. — Eu quero... eu preciso... mas também não sei se devo!
Começava ali o espetáculo.
Sentou-se, cruzou e descruzou as pernas, mordeu a ponta do dedo. Explicou que rodou, bateu em todas as portas, e, quando uma entreabriu, sentiu uma pontada no peito. Não de alegria, mas de culpa.
— Como é que eu vou aceitar emprego... fora daqui? — e bateu na mesa como quem bate no próprio peito. — Estaria traindo vocês! Abandonando essa agência, esses funcionários... Essa mesa, essa cadeira... essa caneta que sempre falha!
O atendente tentou argumentar, num tom meio de psicólogo, meio de funcionário público.
— José... a ideia é justamente que o senhor consiga um emprego. É... meio que... o nosso trabalho.
— Pois é aí que está! — exclamou, levantando-se. — Eu não posso! Não posso aceitar outro emprego que não venha daqui! Seria cuspir no prato que... bem, que não cheguei a comer, mas que me serviram.
O homem piscou, sem saber se aquilo era caso para terapia, polícia ou um café forte.
Ele chorou. Ameaçou rasgar os próprios currículos. Disse que não era homem de trair. Que jamais deixaria para trás quem acreditou nele.
— Eu resisto! — bradou, erguendo o punho. — Recuso qualquer proposta que não venha daqui! Por mais miserável, temporário, humilhante que seja, tem que ser daqui! Ou nada!
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