Bonecos do Mundo

Bonecos do Mundo

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29/11/2018

Embalada pelas cordas da leveza, a marionete também se equilibra no fio de televisão. Oito milhões de fios conectados a oito milhões de pessoas em rede nacional. Assista à reportagem sobre a passagem do Sesi Bonecos do Mundo em João Pessoa. Da Paraíba para todo o território brasileiro. ♥💛

Idealização e curadoria do Projeto Sesi Bonecos do Mundo: Lina Rosa Vieira

Photos from Bonecos do Mundo's post 20/11/2018

Mas, afinal, o que é ser grande? Aqui, não contamos grandeza pelos muitos números e longas medidas. Na matemática, o número que mais gostamos é o que nos traz proporções infinitas e continua livre em mistério: o pi. Seu símbolo traz sobre duas pernas de pau um sinuoso e divertido til. A magnitude de olhar a vida por outros ângulos. Uma essência que sobrepõe a emoção à razão, que nos ajuda a perceber que não há diferença entre o perímetro e o diâmetro de um anel de criança e de uma roda gigante. É assim que o Sesi Bonecos do Mundo enxerga o ser humano: sem distinção. Com uma margem de possibilidades infinita. Somos embalados pelas reticências... Pela liberdade.
A mesma que permite a Alice crescer e diminuir de tamanho a todo momento. A altura ou o peso de uma pessoa, sua idade, cor, gênero, religião, se tem dinheiro no bolso ou não, nada disso faz diferença para o Festival. Queremos você na medida do impossível. E foi assim, sem limites ou restrições, que gente e boneco de todas as dimensões entraram em outra dimensão. Seguiram o coelho de Lewis Carroll pelos 15 hectares do Parque da Lagoa. Caíram juntos num mundo para além de João Pessoa. Joãos, Susys, Ernestos, Gabrielas, Ricardos, Amandas, Pedros, Rosas, Joaquins... Todo mundo com sobrenome Pessoa. Pessoas, pessoas e mais pessoas. Dezenas, centenas, milhares em unidade e união. Olha, foram imensuráveis as contas que fizemos diante do que sentimos frente àquela lagoa de gente. Um formigueiro humano, que de miúdo não tinha nada. Era proporcional à curiosidade e vontade de acesso à cultura. Ainda maior que a gigantesca estrutura montada com seus 5 palcões, palcos e palquinhos. Pavilhão da exposição de 300 bonecos raros. Praça dos Mamulengos e de seus Mestres. Companhias de 7 países e 8 estados brasileiros. Marionetes de mais de 5 metros a títeres do tamanho de um palito de fósforo. E não é que às vezes o miúdo parecia maior que o grande? Sim, grandeza não se conta em números finitos. É o tal enigma do "pi“. Quando a última apresentação do projeto chegou ao final, perguntou Alice: "e agora, onde vamos parar?" Não sabemos, querida. A próxima casa é um mistério. Mas tomara que seja na de quem leu esse texto com a gente.♥💛


Idealização do Sesi Bonecos do Mundo: Lina Rosa Vieira
Fotografias: Beto Figueiroa

Photos from Bonecos do Mundo's post 18/11/2018

O sol foi caindo. A mágica subindo. O céu coloriu seu corpo de rosa-violeta. Na Lagoa, acendeu o reflexo de despedida da tarde. A água espelhava famílias inteiras chegando. Muitas delas traziam cadeiras de praia como se lagoa fosse mar. Carregavam também banquinhos de casa, toalhas xadrez, de bolinhas e até floridas. Feito os panos de chita das barracas dos babaus. O gramado do parque, verdinho, verdinho, ia ganhando as cores do arco-íris. Como se os caminhantes dessem uma trégua a qualquer tristeza para estampar só alegria. Olhos brilhantes a mirar cada espetáculo. A velha, que andava há algum tempo guardada na cesta de palha do marionetista argentino, também quis deitar na grama. Como respirar o ar puro da natureza, trancada ali dentro? Escapou! Precisava das formiguinhas de verdade subindo pelo seu corpo, acordando suas pernas dormentes. Sentia-se viva! Mas uma velha-boneca é viva? Só os malucos da cabeça, tal qual o titeriteiro do Bululu Teatro, acreditam nisso. Uhuhu! Sendo assim, como a irreverente “Moça deitada na grama”, do poema de Carlos Drummond de Andrade, todos ali estavam loucos. Ousados e faltando-lhes parafusos na cabeça. Porque, para o guarda, ver milhares de pessoas deitarem na grama do Parque da Lagoa não é nada comum, tampouco acreditar que bonecos podem viver. “Ei, seu guarda! Olha pra cá! Não estás vendo que podemos falar, nos mexer, sentir e emocionar?” O guardinha, meio atônito com tudo aquilo, não sabia mais no que acreditar. “É paudório no lombório da mesmice!”, gritou o mamulengo, por trás da empanada. O guarda levou uma cacetada do Cabo Setenta de madeira. “Que danado é isso que tá acontecendo, minha gente?”, indagou o oficial, já com uma vontade danada de rir. Esse negócio de teatro de bonecos parece que é contagiante mesmo. Tadinho, estava a serviço, precisava ficar de pé a cumprir seu ofício de proteger o respeitável público. Mas não resistia a se distrair um bocadinho. Quando espiava no canto esquerdo, uma kombi amarela, ocupada por títeres do tamanho de um dedo mindinho, com uma linda-miniatura-mulher chamada Carmen cercada de homens vestidos de preto. O segurança também estava vestido da mesmo cor. Com um olho, assistia à peça. Com o outro olho, ficava atento aos perigos que podiam ocorrer. “Mas que perigo, seu guarda? Aqui, não tem perigo, não. Só encantamento”, disse a velha-boneca, que na sua anciã sabedoria, pegou-lhe pela mão. “Venha, cá. Bora ali”. E levou o moço, fardado, que agora já não trazia mais um ar nada sisudo para um passeio pelo Sesi Bonecos do Mundo no Parque da Lagoa. Entraram na exposição Mamulengo: Patrimônio Imaterial Brasileiro. Depois, seguiram passeando por todos os palcos e cantinhos performáticos do projeto que reúne apresentações de 7 países e 8 estados brasileiros. Ele achou graça ao reparar que muitos marionetistas também estavam vestidos de preto. Sentiu mais orgulho de si mesmo. De boneco para humano, de humano para boneco. De Cabo Setenta de mulungu para PM de carne e osso. Todos têm o direito de acessar a cultura. Ontem, num sábado anil, foi o que aconteceu no Parque Sólon de Lucena, em João Pessoa. Vinte mil pessoas. Salve a liberdade!♥💛

Pra cego ver: fotos sobre a noite do Festival no Parque da Lagoa.

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