Razão Inadequada
09/12/2023
A variação é um erro que ocorre na divisão celular, quando a informação do DNA – nossa biblioteca particular de informações sobre a vida – é copiada para a nova célula. Esta não é única maneira pela qual uma espécie varia, principalmente no caso daquelas que se reproduzem de forma sexuada. Mesmo assim, tudo indica que a mutação e a deriva são as formas primárias de variação gênica – e ambas acontecem além da determinação plenamente previsível.
Não é estranho que a vida precise incluir cuidadosamente o erro para que então haja a criação de novas espécies? Poderíamos dizer que, segundo a biologia, a grande diversidade de seres vivos que conhecemos se reporta à transmissão de uma informação que foi se modif**ando conforme passava de geração em geração durante bilhões de anos, como um longo telefone sem fio, a maior e mais ambiciosa brincadeira de comunicação que já existiu.
Vocês devem saber como funciona a brincadeira: a frase inicial é dita bem baixinho no ouvido de alguém, que passa adiante a ideia, que é logo transmitida seguindo uma fila de pessoas; conforme a mensagem avança, vão surgindo mínimas alterações, que aparecem segundo o que cada pessoa compreende e reproduz da mensagem que lhe chega. Quando o último da fila finalmente enuncia a frase em voz alta, ela se distorceu a ponto de dizer outra coisa! É assim que “Sócrates, o pai da filosofia” se transforma em “os hóspedes da sua tia”.
Talvez, assim como na brincadeira, a graça da evolução esteja nesse imprevisível erro que passamos adiante. Isso nos leva a perguntar: qual será o estatuto ontológico do erro? Dito em outras palavras, como avaliar a importância do desvio naquilo que somos? Indo ainda mais longe, como pensar a falha no pensamento? Afinal, será que existem erros que aperfeiçoam? Estas são perguntas que buscam uma legitimidade para o acaso dentro de um pensamento absolutamente determinista.
Leia também o texto “Um longo telefone sem fio”, disponível completo no nosso site, link na bio.
04/12/2023
Nos acostumamos com a ideia de que determinados desejos são ofensivos, e de que nossas relações amorosas são muito frágeis para que eles sejam colocados. Por esse motivo, passamos boa parte do nosso tempo juntos a disfarçar os interesses. Não que sejamos capazes de deixá-los completamente de lado: acabamos nos contentando com alegrias menores, distantes dos olhos dos outros, vividas em segredo, pelos cantos.
Acontece desses interesses envolverem afetiva ou sexualmente outras pessoas, mas acontece também deles se expressarem em experiências íntimas, sustentadas por ideias ainda frágeis demais para serem expostas aos outros. Assim, por medo de sair perdendo, preferimos consentir mentindo. Ao fazê-lo, entretanto, perdemos a sinceridade como princípio que faz das relações amorosas uma vivência compartilhada do mundo.
Para pensar a sinceridade, precisamos lidar com o fato de que, pela própria natureza da sociabilidade, a mentira acontece e, dada sua inevitabilidade, não podemos recorrer a nenhum moralismo barato para resolver a questão: as dissimulações, as meias verdades, os subterfúgios fazem parte da nossa interação com os outros. Isso, no entanto, não muda o fato de que nos sentimos melhor em relações que podem nos acolher por inteiro.
Uma das coisas que qualif**a as relações é justamente a capacidade de suspender as exigências normais da sociabilidade: o silêncio que se compartilha sem desconforto entre amigos, por exemplo, é um pequeno indício dessa qualidade, que chamamos de sinceridade.
Gostou? Leia o texto completo, “Anarquia Relacional - Sinceridade”, disponível completo no nosso site razaoinadequada.com.
Ouça também o episódio 236 do Imposturas Filosóf**as, “a verdade é um improviso” com Geni Núñez
A poesia é da própria
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