Robson Khalaf

Robson Khalaf

Compartilhar

24/10/2024

Este ano, completo 18 anos de iniciação. Mas o que isso realmente signif**a? Será que é relevante? São mais de duas décadas nas religiões, 15 anos rodando o Brasil, fotografando e contando histórias. Conheci todas as nações de candomblé, presenciei ritos de todas as formas, entidades, encantados e orixás. Estive com pessoas e suas histórias.

Vi milagres acontecerem diante dos meus olhos, coisas que o racional não pode explicar. Mas também testemunhei o que o poder faz com as pessoas — a vaidade, a maldade. Estive frente a frente com mentiras e falsos profetas, homens e mulheres que transformam a religião em justif**ativa para seus fins, manipulando os meios.

Recebi prêmios, participei de exposições. Por algum tempo, meu nome teve relevância no meio. Até o momento em que me dei o devido valor, e tudo isso terminou, porque eu não era mais "barato". O mercado, que sempre foi apenas um mercado, decidiu que a importância é medida em dinheiro, e não nos princípios e valores que antes eram pregados.

Eu nasci em um berço de axé, o mesmo axé que faz a folha de quiabo crescer. Esse axé, que está enraizado na verdade, não é forjado em cima de modismos. São 18 anos de crescimento, dor e alegria. No entanto, meu anel de búzios muitas vezes é apenas isso — um anel, nada mais.

Sou filho do número 6, senhor da fartura. Carrego a senhora do rio e o vento comigo. O ferro marcou minha pele, e meu ori é sagrado, porque assim me permiti ser. Ouvi por anos: "Você faz por orixá, não por mim." E, se Ele está em mim, somos um só. Portanto, se não faz por mim, não está fazendo pelo orixá.

Nunca tive filtro, mas sempre tive bom senso. Meu terreiro é a rua. Os segredos que sei sempre f**aram com Exu, pois não cabe a mim julgar, mesmo quando não concordo. Sim, tenho meu livro secreto, pois minhas memórias e meu legado estão ali, e permanecerão para sempre.

Sou do santo todos os dias, não apenas quando estou vestido com minhas roupas e contas. Meu corpo carrega os símbolos do axé. Ao contrário do que muitos pensam, eu venci e cresci. Exu e Odé me levaram para outros lugares, porque assim eu quis e aceitei meus caminhos.

Nunca me iludi com títulos ou fama. Trocar a bênção é trocar respeito e energia. Quando será que vão entender que oratória sem ação são apenas palavras vazias? Que a vida de axé não é uma receita de bolo e não se resume ao terreiro? A vida de axé é eterna, em cada passo fora do sagrado.

Eu me lembro de tudo e de todos. Cada folha, cada galinha, cada xirê, cada orô. Sou filho da verdade, e assim fui criado.

Hoje, mais velho de idade e de santo, sou apenas um homem mais sábio. Vivo com minha arte, e assim continuarei, pois meu caminho será sempre o mesmo — com Eles à frente e atrás.

Como dizia Pierre Verger, “O mais importante não é ver tudo, mas saber olhar.” E que Aṣẹ o wá ni ibẹ́, “A prosperidade estará sempre presente onde houver axé.”

Robson Khalaf

19/08/2024

Por que não estamos falando sobre isso?

Estamos em 2024, na era da abundância de informações. Vivemos cercados por fórmulas prontas para a felicidade, para enriquecer, para superar desilusões amorosas. Para tudo, parece haver uma resposta pronta.

Estima-se que, diariamente, dezenas de milhões de vídeos sejam carregados no TikTok, alcançando possivelmente mais de um bilhão de postagens mensais. No YouTube, são mais de 500 horas de vídeo carregadas a cada minuto (Sprout Social). Destes, 50% estão ligados ao consumo de algo. Somos bombardeados por bilhões de vídeos nos sugerindo o que comprar, como viver.

Quem mais consome online são a Geração Z (nascidos entre 1997-2012) e os Millennials (nascidos entre 1981-1996). Em média, 44% dessas gerações compram diariamente. A internet se tornou um gigantesco mercado, moldado para o consumo.

Mas por que não falamos sobre isso? Essa é uma pergunta que muitos usam para atrair atenção para temas que não estão sendo discutidos. E isso me leva a refletir:

Será que precisamos falar sobre tudo?
Precisamos consumir o tempo todo?
Por que precisamos usar determinada marca ou produto, só porque virou moda?
Será que é necessário ter uma opinião sobre tudo?

Estamos cercados por histórias de sucesso, felicidade, superação, sempre com personagens que ganham engajamento. Mas e as histórias de fracasso? Por que não falamos da vida real, que não cabe em receitas prontas? Onde está a vida real, aquela que não pode ser contada em um minuto? Onde estão as músicas completas, com história, com letra, e não aquelas que viram apenas trilha sonora para uma dança ou um viral?

Estamos vivendo uma era de superficialidade e impaciência. Tudo se tornou viral, inclusive nossa falta de profundidade.

Não digo que a internet seja um mal em si. Mas o seu consumo, sim. A forma como estamos consumindo tudo mudou, e acredito que para pior. Claro, nem todos estão assim, mas os dados são claros: estamos nos tornando reféns de um consumo rápido e sem reflexão.

O que fazer? Ser mais crítico. Refletir sobre o que consumimos e como vivemos. Encontrar nosso equilíbrio entre o cenário atual e o que consideramos ideal. Esse ideal é pessoal. Cada um deve encontrar seu caminho nesse caos de informações. Não devemos absorver informações que não têm critério, fonte, ou base, que existem apenas para nos induzir ao consumo. O dano disso é irreversível. Uma vez exposto, não há como voltar atrás. Mas logo esquecemos, porque haverá outra notícia que captará nossa atenção, e o ciclo recomeça.

Como será daqui a alguns anos? Não sei. Sei apenas que o que capturei com minha câmera há 15 anos jamais voltará. O que foi vivido, ficou gravado em filmes e fotografias. Hoje, vivemos a era do minuto e da tela vertical.

Estamos sendo programados para consumir de forma rápida e superficial. Mas é possível resistir a isso, se estivermos dispostos a refletir e escolher conscientemente o que absorvemos.

Robson Khalaf

04/08/2024

Quanto Vale Sua História?

Vou contar um causo.

Eu nasci sob um teto sossegado, trazido por Omulu em 2006. Fui o primeiro filho a nascer depois que a casa reabriu. Nunca me esqueço da noite em que minha mãe saudava Omulu. Tenho certeza que foi ele que me trouxe para casa.

Anos depois, quando a fotografia já fazia parte integral da minha vida, eu estava fazendo um documentário no Rio de Janeiro sobre intolerância religiosa. A entrevista era com um senhor mais velho, cujo filho sofreu intolerância, e o pai foi agredido na rua por pessoas intolerantes. Em determinado momento, o Dono da Terra veio. Ele era da nação Jeje. Foi pura emoção os fatos que aconteceram depois, até que ele disse: "O senhor é o mensageiro." Foi aí que coloquei meu trabalho como "O Olhar do Mensageiro."

Nesse instante, tudo mudou. Com todo o respeito aos meus mais velhos e aos mais velhos que passaram pelas minhas lentes, meu olhar nunca foi para o glamour, roupas, danças, e sim para o SAGRADO. Esse que me motivou a contar as histórias de pessoas pelo sagrado. Todos os quartos de santos que entrei, todos os ritos que presenciei nos meus longos anos de ofício, sempre foram porque Obi deu aláfia.

Meu compromisso foi e é com o sagrado. Esse sagrado habita meu ori. Hoje vejo que nunca seria dirigente de uma casa. Um homem cheio de fundamentos e conhecimentos. Claro que conheço e tenho minhas mandingas, mas acredito que minha arte é minha missão. As pessoas têm que entender que nem todos nasceram para ZELAR pelos outros, que temos outros papéis dentro da crença.

O candomblé que conhecemos hoje não é puramente africano, até porque esse não existe em sua raiz. Somos um punhado de costumes, receitas e influências que geraram o que somos hoje.

São orixás que se complementam, assim como todos os elementos. Não se faz comida sem água e sem fogo. Não tem ebó sem folhas, não se tem iniciação sem sacrifícios.

Não tem receita de bolo. Cada ori tem sua mágica e forma.

Eu aprendi isso com pessoas que se foram e algumas que ainda estão entre nós. Então aprendi o valor da história.

Por isso te pergunto: Quanto vale sua história?

Robson Khalaf

Quer que seu negócio seja a primeira Serviço Fotográfico em Joinville?
Clique aqui para requerer seu anúncio patrocinado.

Categoria

Telefone

Endereço


Rua Felipe Schmitd
Joinville, SC