Filosofia e Cinema
29/07/2025
Oliver Stone retornou ao Vietnã com uma câmera na mão. Anos antes, estivera lá como soldado. Agora, com ‘Platoon’, queria rememorar o que os estúdios evitavam: o cheiro da lama, o cansaço que emudece, a paranoia que cresce entre árvores fechadas. Sem apoio do governo americano, decidiu filmar nas Filipinas, com armamentos e veículos emprestados pelas forças armadas locais. Era 1986, o regime de Ferdinand Marcos desmoronava e manifestações explodiam nas ruas. Stone reuniu um elenco jovem para o meio do caos, longe de qualquer conforto ou estabilidade.
Ao contrário de outros diretores que preservavam o elenco, Stone expôs seus atores ao trabalho incansável. Foram 14 dias em selva fechada, sem banho, sem contato com o mundo exterior, comendo ração militar e dormindo em trincheiras lamacentas. Dale Dye, veterano de guerra contratado para apagar qualquer afetação hollywoodiana, simulou emboscadas, trocas de tiros e até choques emocionais para provocar reações autênticas. Só depois desse batismo, as câmeras começaram a rodar.
Stone filmou de trás para frente. As cenas finais, marcadas pelo colapso físico e mental, foram as primeiras a serem rodadas. Quando Charlie Sheen chegou, o elenco já estava exausto — como Stone queria. Ele interpretava Chris Taylor, um soldado recém-chegado, dividido entre dois sargentos em conflito: o impositivo Barnes (Tom Berenger), cuja cicatriz exigia três horas de maquiagem, e o idealista Elias (Willem Dafoe), que tentava manter a moral num ambiente sem regras. A tensão entre os dois ultrapassava a ficção, alimentada pelo diretor, que manipulava o psicológico dos atores para alcançar o máximo de realismo.
O cronograma foi prejudicado por tufões tropicais, febres, atrasos de transporte e falhas técnicas. As armas travavam com a umidade, cabos afundavam na lama. Um dia, a produção chegou a ser evacuada por ameaça de golpe militar nas redondezas. Mas o set não parava por completo. Havia um senso de missão que ultrapassava o orçamento. Cinquenta e quatro dias depois, o trabalho dispendioso findava.
Cada quadro de ‘ Platoon’ carrega suor, trauma e uma verdade indigesta. É um filme que chora e sangra — feito por um diretor que conheceu aquela tragédia de perto e quis fazer o público sentir, na carne, o gosto amargo da derrota inadmissível. Roger Ebert disse: “Truffaut dizia que era impossível fazer um filme verdadeiramente antiguerra. Eu gostaria que ele tivesse vivido para ver Platoon.” E talvez a melhor expressão de seu impacto tenha vindo do próprio Charlie Sheen, que, ao voltar para casa após as filmagens, ajoelhou-se no chão e o beijou. Ele havia sobrevivido.
Pesquisa e redação: Daniel de Boni
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