Um simples complexo

Um simples complexo

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22/08/2023

Sempre que leio obras da psicanálise me surpreendo com sua capacidade descritiva e construção teórica. Assim vou confirmando uma opinião particular sobre essa escola clínica: é uma extraordinária entnografia do psiquismo, com seu próprio arcabouço epistêmico sofisticado.

Portanto o problema das psicanálises é sempre o mesmo: esse arcabouço limita a descrição etnográf**a quando o fenômeno subjetivo não se enquadra na proposta do saber clínico. Isso gera um paradoxo na sua produção de conhecimento: encontrar no paciente aquilo que a teoria supõe ser o processo psíquico adoecido à revelia de uma produção subjetiva que não se enquadra nas categorias de fenômenos psíquicos descritos pela psicanálise: o famoso leito de procusto.

Então, como Contardo Caligaris, psicanalista, me pergunto, sem ser psicanalista, o que é mais importante: 1) construir sentido e ressignif**ação a partir do relato do sujeito usando arcabouços teóricos variados como ferramentas de inteligibilidade (assim como faz a etnografia) e pensar técnicas de intervenção subjetivas, 2) ou reiterar a episteme psicanalítica ao buscar no sujeito as descrições e reproduções do arcabouço?

Prefiro o primeiro. É mais difícil, exige mais atenção, mais leitura, mais interdisciplinaridade e rigor epistêmico para produzir uma gnosiologia clínica com consistência interna.

Finalmente sobre o livro do Reich: uma deleitável etnografia sobre como virilidades da época moldavam o aparato psíquico - caráter -, agência social, sexualidade e couraça - corpo - dos sujeitos daquele tempo histórico. Sem esquecer o mérito de que talvez esse tenha sido o primeiro e único autor das ciências psi que tenha conseguido pensar tão sistematicamente símbolo e afeto no corpo, instância que tende a ser esquecida ou mal articulada teoricamente nas clínicas psi em geral.

Leitura recomendada e até certo ponto incontornável para uma educação psi.

09/03/2023

Ir para as ruas, como estratégia de agência política, enfraqueceu-se durante a pandemia. Fomos tomados/as pelo medo da infecção, a angústia da proximidade do outro e as manifestações violentas de forças de segurança que passaram a ser declaradamente instrumentos de opressão (já no carnaval nenhum dos três elementos citados anteriormente parece ter sido um problema 😏).

E sem as ruas, o que nos resta? A práxis política: participação ativa na vida do Estado, adesão e participação nas atividades do seu partido de escolha, a ação direta e a comunicativa.

Mas isso é tão defasado, né? Uma proposta do século dezenove!

Parece que cansamos disso! O problema da política é a ideologia, e como seria bom um Estado sem isso, puramente técnico, com intervenções baseadas em dados, guiadas por algoritmos que buscam tão, e somente, o bem estar de todos/as, prevendo nossas demandas, corrigindo nossos erros, dirigindo nosso progresso inesgotável!

Só que não.

Por trás de toda tecnologia, inteligência artificial, algoritmos e interpretação de dados existem mentes humanas, com afetos humanos, ideologias humanas e aspirações ao poder demasiadamente humanas.

Em suma os tecnoregimes infocráticos não tem nada de técnico, impessoal, puramente utilitário e deontológico. O que acontece é o uso da tecnologia para a manutenção do regime psicopolítico, e sobre esse tema, tenho uma outra postagem que pode explicá-lo e seu impacto sobre a vida pessoal psíquica de cada um/a de nós.

Será que a infocracia é a solução, ou só nos alienamos do eterno problema da disputa de poder e lugar de fala entre seres humanos?

Photos from Um simples complexo's post 27/02/2023

É possível fazer psicoterapia sem ter conhecimento antroposocial, histórico e econômico do próprio país?

Seguia o post. Não termina com uma resposta clara, e sim com uma pergunta tendenciosa ;)

05/12/2022

Que livro divertido, revelador, chocante e terrivelmente europeu/continental na sua articulação teórico-clínica psicanalítica.

Ao longo dos vários textos que o compõem, a autora irá apresentar alguns conceitos muito interessantes que serão expostos e articulados - a claustrofilia e a síndrome de Estocolmo, entre outros - para falar das famílias ocidentais contemporâneas e certas formas de sofrimento psíquico que as permeiam.

L. Pigozzi escreve bem, seu estilo sendo rico em referência e denso em articulação, que pode ser lido por leigas/os ou especialistas.

Entretanto, contudo, todavia…

Gostaria de lembrar que os sujeitos, cujos casos clínicos são apresentados para embasar suas análises teóricas, são todos/as italianos/as. Em outras palavras, são uma amostragem com características afetivo-sociais latinas e europeias.

Há correspondência com dinâmicas familiares/maternais/paternais brasileiras? Em alguma medida sim, em outra não. Quer saber onde f**a esquisito para pessoas de outro ocidente? Leia e me fale/pergunte por aqui ;)

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