Isabel Fontes
22/10/2025
Apesar do Sangue, de Rita da Nova
Rita da Nova escreve com a ferocidade silenciosa de quem já viu o amor falhar — e, ainda assim, acredita na sua possibilidade.
Apesar do Sangue é um romance sobre a herança — não, a que se escreve em testamentos, mas a que se grava nos gestos, nos silêncios, nas feridas que teimam em não sarar.
No centro está Glória, uma avó que mede os limites do corpo e o peso do legado que deixará. À sua volta gravitam aqueles que já desistiram: Helena, a mãe que partiu; Eduardo, o quase-pai que nunca deixou de o ser; e Pedro, a criança que o mundo decidiu ser difícil de amar.
Eles não vivem — assombram-se reciprocamente. Cada capítulo soa a confissão murmurada através de paredes, num entrelaçar de vozes frágeis e ternas.
A prosa de Rita da Nova respira — é poética sem ser melosa, carregada de dor e contenção.
As suas metáforas desdobram-se com a precisão de quem passou a vida a escutar o que não é dito. Constrói a história como se a fizesse de vidro partido: fragmentos que refletem a mesma ferida sob ângulos diferentes — sempre a cortar, sempre a brilhar.
Este é um romance sobre como o amor sobrevive às suas próprias falhas.
A autora não moraliza; observa. Permite que as personagens sejam frágeis, contraditórias, quase redimidas — e é aí que reside a beleza.
O ritmo não linear da narrativa imita a memória — circular, imperfeita, profundamente humana.
Ler Apesar do Sangue é, por vezes, como suster a respiração debaixo de água.
Reconhecemos ali a nossa própria família — não nas ações, mas nas pequenas ruínas: na incapacidade de dizer a palavra certa, no gesto que falha, no silêncio que se prolonga.
Rita da Nova compreende que cada família é uma pequena civilização em ruínas, onde a ternura e a crueldade falam a mesma língua.
Há uma graça subtil na forma como deixa a história respirar — sem grandes revelações, apenas a lenta consciência de que o amor, também ele, tem um corpo e que se magoa com facilidade.
Quando a última página se fecha, o que f**a não é tristeza, mas reconhecimento: a certeza de que amar é sempre arriscar desaparecer dentro da dor do outro — e chamar a esse risco, simplesmente, família.
17/10/2025
A Noite em que o Verão Acabou – João Tordo
Há livros que não se limitam a ser lidos — atravessam-nos. Entram devagar, como o fim de uma tarde quente, e f**am ali, a murmurar nas sombras do pensamento. A Noite em que o Verão Acabou é um desses livros: um romance que se disfarça de thriller para poder falar de tudo o que realmente importa — o amor, a perda, o tempo e a culpa.
Não é um livro sobre o crime, mas sobre o que o silêncio faz às pessoas. João Tordo escreve como quem observa a vida através de uma janela embaciada: tudo o que vemos é real e, ainda assim, parece um sonho prestes a desvanecer. As personagens movem-se entre a luz e a sombra, presas ao passado, àquilo que não conseguiram esquecer — ou perdoar.
Pedro Taborda, o narrador, é um desses prisioneiros da memória. No verão de 1987, apaixona-se por Laura Walsh, a filha de um magnata americano em férias no sul de Portugal — uma paixão que o marcará muito depois do calor se dissipar e o mar f**ar frio. Anos mais tarde, já em Nova Iorque, reencontra Laura num contexto muito diferente: um homicídio, uma filha acusada, uma família dilacerada por segredos antigos. Mas o crime é apenas a superfície do abismo — o que Tordo escreve, na verdade, é sobre as feridas invisíveis que o tempo não cura.
Há em Tordo uma elegância quase cruel. Ele não grita, sussurra. Não mostra, insinua. E é precisamente nesse gesto contido que nasce a força da sua escrita — uma força que vem da pausa, do intervalo entre o que é dito e o que f**a por dizer.
Enquanto lia, senti-me dentro de uma casa fechada há muitos anos, onde cada divisão cheira a recordações. O livro é assim: cheio de ecos, de portas entreabertas, de vozes que continuam a falar mesmo quando a página vira. Há uma tristeza bela a atravessar tudo — a melancolia de quem sabe que nenhum verão volta a ser o mesmo, mesmo quando regressa o calor.
No fim, não é o mistério que nos prende, mas a ferida. A ferida de quem ama e erra, de quem guarda demasiado tempo o que devia ter deixado partir. A Noite em que o Verão Acabou é isso — o retrato de um amor que se dissolve na memória, mas nunca desaparece por completo.
Lê-se com a sensação de estar a caminhar à beira do mar ao entardecer: o vento levanta o passado, o céu fecha-se devagar e percebemos que o verão — aquele, o verdadeiro — acabou.
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