jorge_fumo258
25/09/2025
Estou ciente
das tantas noites em que não tens dormido,
jogado em pensamentos
que te deixam cada vez mais perdido.
Eu sei
que há dias em que tu não tens vivido,
atuando como se fosses um foragido —
um foragido da tua própria vida.
Sim, eu sei que não estás nada bem.
Mas diga-me:
tu vais desistir?
Vais desistir só porque
naquele ma***to dia testaste positivo?
Diga-me: vais realmente desistir?
Como se desistir fosse a solução
que, num passe de mágica, apagaria
aquela dor que esse momento te fez abraçar.
Eu sei que, talvez,
não consegues assimilar
que desta vez serás tu
quem terá de carregar esse ma***to vírus.
E se te deixares convencer,
ele irá consumar-te.
Ainda assim, optas por desistir?
Ou esgotarás as tuas forças tentando
achar os possíveis culpados,
atirando pedras a fulanos e fulanas?
E daí se existirem culpados —
eles irão alterar o atestado dos teus resultados?
Não, meu — preocupa-te contigo,
não com os culpados, meu amigo.
Talvez também sejas uma amiga
um tanto perdida,
acreditando que, depois dali,
não existiria outra vida.
Com isso, vais desistir?
Vais jogar a toalha fora
e ignorar todas as outras chances e possibilidades?
Possibilidades
de mostrar aos outros —
e até a ti mesma —
que és uma mulher de verdade.
Vais realmente desistir?
Condenar a tua vida a um bloqueio de sonhos
que antes te faziam existir?
Diz-me para eu parar de insistir nesta maldita pergunta —
talvez, se optares por não desistir,
algum dia agradeças por teres sido ouvido.
Não, não estás sozinho —
e muito menos sozinha.
Há mãos prontas para segurar as tuas.
Levanta-te, mesmo que devagar.
Passo a passo, até que encontres
o cuidado que te pertence.
Não esperes que te arrumem a vida.
Recolhe as tuas forças
e confronta o teu medo.
Reinventa-te.
Prova a ti mesmo que
o futuro não se anula.
Aliás
20/09/2025
Sim, eles marcharam, Pai —
e desta vez foi diferente.
Até os inanimados f**aram
comovidos, e era evidente:
estavam felizes.
Se fosse aqui, Pai,
as coisas seriam outras.
O ar estaria poluído
e o único cheiro sentido
seria a asfixia
do corpo que resiste.
Alguns de nós perderíamos
a chance de ouvir um “bom dia”,
pois o som das armas em disparo
rasgaria nossos tímpanos —
já cansados
de promessas vazias.
Sim, Pai, aqui seria assim:
soltariam os cães de farda,
acorrentados às ordens superiores,
e, sem peso na consciência,
dispersariam a multidão —
os tais, os ditos “vândalos”.
Alguns cairiam nas urgências
exaustas dos nossos hospitais.
Outros pediriam apenas um espaço
de 70×180cm
na última morada.
E haveria ainda aqueles
com pés quebrados,
rostos rasgados,
corpos perfurados.
Mas hoje, Pai, foi diferente.
Eles marcharam.
Jorge Fumo
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