Fernando Nascimento
06/05/2026
MANIFESTO LAMPIARTE 2026
NÃO É FÉ. NÃO É DEMOCRACIA. NÃO É VERDADE.
I — O SEQUESTRO
Vestiram o poder com a face de Cristo
e chamaram obediência de virtude.
Roubaram o sagrado,
domesticaram o infinito,
e venderam o céu
como indenização pela miséria na Terra.
Mas o símbolo não nasceu para servir ao império.
Foi capturado.
E tudo que é capturado
pode ser retomado.
II — A CONTINUIDADE
A coroa caiu.
O sistema permaneceu.
O latifúndio é a nova nobreza.
A mídia é o novo púlpito.
O mercado é o novo trono.
Chamam de democracia
o que opera como tutela.
Chamam de liberdade
o que funciona como permissão condicionada.
Não é uma monarquia antiga.
É algo mais sofisticado:
uma oligarquia adaptativa que aprende, simula e se disfarça.
III — A MENTIRA INVERTIDA
Eles não apenas mentem.
Eles reorganizam o sentido.
Chamam o saque de progresso.
Chamam a resistência de crime.
Chamam a destruição de desenvolvimento.
Essa não é uma falha do sistema.
É o método.
Quem controla a narrativa
não precisa esconder a violência —
basta rebatizá-la.
IV — O EPISTEMICÍDIO
Não basta explorar corpos.
É preciso silenciar mundos.
Transformaram saber em mercadoria.
Transformaram ciência em instrumento.
Transformaram pensamento em ameaça.
Enquanto isso:
A cosmovisão ancestral vira folclore.
O saber vivo vira superstição.
A dúvida crítica vira desordem.
E assim se constrói o mais eficiente dos controles:
aquele que define o que pode ser considerado real.
V — O ERRO DA REVOLTA
A indignação sem forma
alimenta o próprio sistema que combate.
O ressentimento gira em falso.
A denúncia sem construção
vira ruído absorvido pelo algoritmo.
A história já mostrou:
Não basta expor o capataz.
Não basta nomear o opressor.
Sem reconstrução,
toda revolta vira combustível reciclado.
VI — A RETOMADA
Não se trata de destruir símbolos.
Mas de reocupar o significado.
Não se trata de negar o conhecimento.
Mas de reorientar o método para a verdade.
Não se trata apenas de resistir.
Mas de reorganizar a realidade.
A ruptura real acontece em três frentes:
Simbólica: recuperar o imaginário sequestrado
Material: disputar terra, produção e infraestrutura
Epistêmica: reconstruir as formas de conhecer
Sem isso, não há libertação...
30/04/2026
O TRABALHADOR NÃO É SILÊNCIO
Não és máquina.
Ainda que te liguem ao amanhecer
e te desliguem ao anoitecer,
há algo em ti
que não aceita programação.
Te ensinaram a baixar os olhos,
mas teus ombros carregam o mundo.
Te chamaram de recurso,
mas és origem.
Te mediram em horas,
mas tua existência
não cabe em planilhas.
Há um fogo antigo em tuas mãos.
Fogo que constrói cidades,
que ergue pontes,
que alimenta multidões —
e ainda assim,
tentaram te convencer
de que eras pouco.
Te dividiram em turnos.
Te fragmentaram em funções.
Te reduziram a números.
Mas esqueceram de algo essencial:
consciência não se fragmenta.
Mesmo cansado,
há em ti um pensamento que insiste.
Mesmo oprimido,
há em ti uma centelha que observa.
E essa centelha…
não trabalha para ninguém.
Tu és mais que força.
Mais que produção.
Mais que sobrevivência.
Tu és história em movimento.
És memória viva.
És futuro em construção.
Hoje, não te celebro como peça —
te reconheço como potência.
Não como engrenagem —
mas como ruptura.
Que teu despertar
seja mais forte que o medo.
Que tua lucidez
seja mais alta que o ruído.
E que nunca mais te convençam
de que viver
é apenas trabalhar.
Porque o trabalhador não é silêncio.
É a voz que o mundo tentou calar —
e não conseguiu.
LAMPIARTE 2026
17/04/2026
Uma luz artificial e ofuscante tenta esconder uma estrutura sombria e predatória, enquanto uma luz natural, suave e inabalável, revela a verdade sem esforço. Com um design sofisticado, com contrastes marcantes que reforçam a ideia de que a verdade é simples, enquanto o mal exige uma encenação complexa.
Nesta peça Lampiarte 2026, a imagem central retrata um halo de neon ofuscante que, ao ser observado de perto, revela-se uma gaiola para uma figura sombria. Ao lado, a luz simples e constante de uma vela representa o bem verdadeiro, que brilha com honestidade e sem artifícios.
O design é minimalista e sofisticado, focado no contraste entre a luz artificial (o mal que se veste de luz) e a luz natural (o verdadeiro bem).